Há muito o que negociar no dia a dia da empresa: metas, processos, entregas, remuneração, férias… Mas não dá para negociar comportamentos inaceitáveis. Assédio sexual, assédio moral, preconceito, microagressões que parecem brincadeira, mas que há sempre um ofendido que não ri – ou só ri para não parecer o chato da equipe, embora no fundo tenha se sentido ridicularizado.

Foi com isso na mira que a Braskem, petroquímica multinacional especializada em plástico, criou o programa “Respeito é Inegociável”. E essa iniciativa tem uma união de forças que faz toda a diferença: a liderança de diversidade e inclusão, que geralmente é a principal responsável pelos treinamentos sobre como tratar minorias, juntou-se ao setor de compliance, o pilar da empresa para evitar práticas ilegais e comportamentos fora dos padrões de ética.

Ou seja, o conhecimento de quem está acostumado a investigar, pedir correções e até punir profissionais abusivos agora está atuando em parceria com a área que zela pela segurança psicológica de todos.

O programa começou em 2023 no Brasil (a Braskem tem unidades em outros países, onde o projeto já está em implantação), liderado por Débora Ferraz, gerente global de Diversidade, Equidade e Inclusão e de Ambiente e Bem-Estar, e por Marcelo Toro, diretor de Compliance.

São duas linhas de atuação que se completam. Há um treinamento intenso envolvendo desde as lideranças até os profissionais da operação, com muitos exemplos práticos, conscientizando as pessoas do que é um comportamento abusivo, o que é assédio, o que são (e o que não são) microagressões. “Muita gente não tinha noção de que piadas homofóbicas não cabem num ambiente corporativo”, afirma Débora. “Outro exemplo: as pessoas achavam que, para ser um assédio sexual, alguém precisa tocar no corpo do outro. Mas não. Se você convida um colega para tomar um drink depois do expediente, e a pessoa diz que não, e você fica insistindo muito nisso, também é assédio. Precisamos explicar essas coisas, porque muita gente não faz a mínima ideia do quão isso abala o psicológico do colaborador assediado.”

Até agora, já foram mais de 90 sessões de treinamento do programa, resultando em 5 mil pessoas participando no país.

Esses letramentos acabam fazendo com que os indivíduos, mais conscientes do que estão sofrendo, procurem o canal Linha de Ética, administrado pelo compliance. Esse é o caminho que a Braskem já tinha para denúncias, mas que, com a integração aos treinamentos específicos do programa, explodiu em número de manifestações. Em 2018, o canal recebeu cerca de 200 denúncias. Em 2023, primeiro ano do programa, foram 1.400.

“Sempre tivemos algum tipo de atuação para combater comportamentos discriminatórios ou assediadores”, diz Marcelo, “mas esse trabalho ganhou muita força com a chegada da Débora, em 2022, pela sinergia dos temas entre
as nossas áreas”.

Estou sofrendo assédio ou não?

O piloto do programa aconteceu em Alagoas, ainda em 2022, e o impacto foi tão positivo que transformou o que era experimento em uma iniciativa que agora faz parte da cultura da Braskem. Os participantes se mostravam surpresos em descobrir que um comentário a respeito do cabelo crespo de uma mulher negra, por exemplo, mesmo que dito em tom de bom humor, é inaceitável. E chegavam tirando suas dúvidas se o que sofriam se encaixava ou não no que alguém pode levar ao canal de denúncias.

A partir das denúncias, o programa parte para uma fase de investigação, de modo a identificar se o depoimento procede e demanda alguma medida disciplinar: que pode ir de um feedback mais duro a um desligamento. Até porque há casos que, embora desagradáveis, não merecem reprimenda.

Se um líder, num dia específico, grita numa reunião, isso é um caso pontual. Já se o jeito dele se expressar assim é constante, o executivo pode ser considerado um chefe tóxico. Caso os gritos sejam direcionados para a mesma pessoa sempre, aí é assédio moral.

“Nosso objetivo não é só ficar fazendo treinamento”, aponta Débora Ferraz. “Queremos é uma grande mudança comportamental na companhia, e para isso a gente precisa ser consistente. Criamos um termômetro, que é uma pesquisa rápida, para sentir como as pessoas se sentem trabalhando aqui, e adicionamos três perguntas muito simples: “Você percebe a Braskem como uma empresa inclusiva?”, “Você se sente livre para ser você mesmo?”, “Você se sente respeitado?”. Porque respeito é o mínimo que se espera para poder trabalhar com segurança psicológica, produtividade, interação… e até felicidade.

Disponível originalmente no site da Você Rh. Publicado na CompliancePME em 13 de março de 2025